O subtítulo entrega a tese central do autor: "Isaac Newton e os newtonianos". Neste pequeno livro de 120 páginas, lido em cerca de 7 horas, Bauer lança a hipótese do envolvimento, ou pelo influência, direta ou indiretamente, de Isaac Newton (1642-1727) no surgimento da Maçonaria especulativa - esta que chegou até nós.
Para tanto, Bauer realizada um verdadeiro debate historiográfico sobre as origens da Maçonaria operativa: retomando os mitos fundadores da fraternidade, ele menciona a importância da "escola autêntica" nos estudos maçônicos, dado o emaranhado de fatores que causaram seu surgimento. O autor evoca as lendas fantasiosas sobre um Adão maçom, a profusão de centenas de graus em ritos desconhecidos, criticando os que produzem e disseminam tais informações, fazendo de sua profusão um meio de vida em cima de incautos ou ardorosos defensores de tais histórias.
Em seguida, ele destaca as três principais abordagens a respeito da Maçonaria e sua história: empírico-crítica, mais próxima do rigor científico; mítico-romântica, que aponta origens e personagens pitorescos na Ordem, como Moisés e Salomão; e universal, onde tudo no mundo apontaria para a Maçonaria - esta, no meu entender, favorece teorias conspiratórias, como a dos símbolos maçônicos nas notas de dólar ou apertos de mãos disfarçados de líderes políticos mundiais.
Daqui em diante, fica óbvia sua afiliação com a abordagem empírico-crítica, embora ainda mencione alguns dos mitos maçônicos, como a própria transição da Maçonaria operativa para a sua fase especulativa: para Bauer, quando a Franco-Maçonaria surgiu, a Maçonaria operativa já tinha entrado em declínio, tanto pela crise das monarquias britânicas, quanto pela Reforma de Henrique VIII, que criou a Igreja Anglicana através do Ato de Supremacia, em 1534.
Bauer, então, passa a desenrolar o fio da história, abordando a história da Maçonaria especulativa desde os séculos XIV e XV, quando foram criadas as corporações profissionais na Velha Ilha, a iniciação dos "aceitos" alheios ao ofício da construção, citando nomes como York e Kilwinning, até chegar à virada do XVI para o XVII, passando por Anderson e concluindo de forma crítica: "é possível deduzir que a história da Maçonaria foi muito mais frequentemente inventada do que pesquisada, manipulada do que descoberta. Portanto, era preciso encontrar o elo que explicasse o passado, a chave que desbloqueasse a trava da verdadeira tradição, a ferramenta que liberasse a memória" (p. 41).
Em seguida, o autor chega à história de Robert Moray (1607-1673): contemporâneo de Newton, foi um engenheiro de origem nobre, cuja vida alternou entra a academia, a diplomacia e a presença em conflitos políticos e guerras. É apontado como um dos primeiros profanos "aceitos" na Maçonaria operativa. Ele destacou-se, em 1660, por ter sido um dos fundadores e primeiro presidente da Royal Sociey, fundada em Londres e ainda em funcionamento como a academia nacional de ciências do Reino Unido. Sua biografia está relacionada com a de homens como Elias Ashmole (1617-1692), iniciado na Maçonaria em 1646, e membro fundador da Royal Society - influenciado pelos estudos de alquimia, astrologia e física, viu na Maçonaria uma instituição de preservação de antigos conhecimentos científicos e filosóficos.
Bauer dedica este capítulo, "De Robert Moray à Royal Society", a evidenciar as relações profundas entre sues membros e a Maçonaria, destacando as semelhanças de estruturas, nomes e objetivos, fazendo logo depois sua vinculação com a figura de Isaac Newton, sobre quem o autor se debruça com atenção, falando até mesmo de seus polêmicos textos teológicos, onde discordava de dogmas cristãos como a trindade e a natureza divina de Cristo, além de abordar temas como o ocultismo e o hermetismo.
Ganha importância, neste momento, seu secretário e discípulo Jean-Théophile Desaguliers (1683-1744), frances de origem protestante, possivelmente huguenote, radicado desde cedo na Inglaterra. Sua relevância chega ao ponto de Bauer dizer o seguinte: "se a Franco-Maçonaria fosse uma religião, Newton seria o Cristo mediador e Desaguliers, seu Profeta" (p. 71).
No fim do capítulo dedicado a Newton, o autor expõe, de forma extremamente concisa, a hipótese desenvolvida ao longo do livro, considerando também as transformações políticas ocorridas na Grã-Bretanha:
"A partir de Lojas Maçônicas Escocesas, maçons aceitos e partidários de Carlos I brilharam suficientemente, viajaram e estudaram para criar espaços de pesquisas e debates em um país devastado pelas guerras. Com a ajuda de rosacrucianos, hermetistas e alquimistas, cientistas e políticos, suas criações permitiram reunir a base do que viria a ser a Franco-Maçonaria pouco antes da passagem do século XVIII. Essa mistura conseguiria ter êxito e dar lugar ao texto de 1723, a partir de uma reconciliação política bem-sucedida entre os partidários de Cromwell e os Monarquistas. A Franco-Maçonaria inglesa, nascida de escoceses e de dissidentes, parece selar o compromisso da restauração e do parlamentarismo".
Alain Bauer não determina a certeza de sua hipótese: criticando o crescente dogmatismo no meio maçônico, ele demonstra com evidências palpáveis que a Maçonaria especulativa surgiu por influência da Royal Society, em uma relação sinérgica em que é difícil até mesmo determinar o que apareceu primeiro, não havendo, entretanto, um processo de "transição" até o marco de 1717 - deixando, assim, a decisão crítica para o leitor. Para Bauer, a Royal Society possivelmente foi a instituição que, concebida e composta por maçons aceitos nas decadentes oficinas operativas, preservou seus fundamentos e proporcionou seu ressurgimento como uma fraternidade adepta e, de certa forma, guardiã da filosofia, da ciência, da razão e da liberdade de consciência.

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